16 maio 2017

Matrix (1999)

Já estava mais do que na hora de falar alguma coisa sobre este filme tão fascinante. Seria uma versão ciberpunk do Mito da Caverna de Platão, mas digo que ele vai além disso. Ele praticamente explica o funcionamento da sociedade - que sempre foi assim, só muda de roupa. Não pude deixar de ver a mesma cena uma pá de vezes, para absorvê-la nos mínimos detalhes. Esse filme ficou meio esquecido, afinal, para alguns ele é apenas o marco dos efeitos visuais no cinema.

As pessoas são escravas de uma ilusão. Pode não haver os plugues (ainda) ou mesmo o Agente Smith não andar engravatado o tempo todo (há uns que usam chinelo e bermuda). O real pode não ser o real. Se você perguntar o que é realidade, ou mesmo se questionar, as coisas travam. A realidade está além da coxinha, da mortadela, e mesmo da coxinha de mortadela. E as pessoas são programadas a não questionar a própria realidade.

O problema que hoje em dia esse tipo de assunto está muito em voga, e isso não é lá muito bom. Afinal, o sistema se atualiza para manter o status quo. Não dá para quebrá-lo, destruí-lo: é algo que não se vê sem realmente olhar. E não dá para tirar todo mundo, fazer uma espécie de salvação coletiva. As pessoas não estão prontas, e acham tudo isso um tremendo absurdo. E algumas podem até encher o saco para largar dessa. Afinal, quem não é a gente, é agente.

Talvez seja difícil aceitar que um filme esteja falando de algo tão sério. Se fosse um filme como Nosso Lar, que todo mundo fica imaginando a realidade como aquilo depois de assistir, mas não: é algo que questiona a própria realidade, os próprios conceitos, a ponto de após o filme ficar matutando ou tentando esquecer. Há um livro muito bom sobre o filme (tirando os capítulos sobre Feminismo e sobre Comunismo) chamado Matrix, Bem-Vindo ao Deserto do Real, que discute filosoficamente cada cena.

A grande sacada do filme é apontar a saída do sistema: dentro de cada pessoa. Não é uma atitude externa, é despertar de si mesmo, da própria ilusão. Isso seria o perdão do "Pecado Original", por assim dizer. E assim descobrir-se sem limites ou regras. Talvez essa parte do final do filme seja pouco compreendida: mostrar às pessoas que elas são livres não seria às pessoas que dormem, mas sim àquelas que estão fora do sistema de alguma forma. A liberdade está dentro: as pessoas são escravas delas mesmas.

Ver o sistema é algo assustador e fascinante. Não adianta descrever com palavras: é necessário sentir. É tomar a pílula vermelha e nunca mais voltar ao que era antes. A promessa de liberdade é muito boa, mas há a pílula azul também: para alguns, a ignorância (ainda) é uma bênção. Saber demais envelhece antes do tempo, já alertava a bruxa d'A Bela Vasilisa. A Verdade pode chocar, enlouquecer, como na fábula das três pessoas que veem Deus: a primeira enlouquece, a segunda vira um fanático religioso e a terceira transforma sua experiência em música.

Esse filme é uma das linhas-guia do blog, e mesmo da minha vida, junto com o livro Power Vs. Force do David Hawkins. As pessoas temem enlouquecer, mas o caminho é de ida e volta: não se sai totalmente no sistema, apenas se desliga dele, mesmo vivendo em seu ambiente, imune a suas influências. Aí se pode falar de livre-arbítrio, com escolhas baseadas na própria consciência, e não fruto de programações externas. Quando se volta ao sistema, desplugado, não se volta como se saiu. Isso é revolução.

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