12 dezembro 2017

Direito do Desejo x Direito da Percepção


Com essa noção de que devemos ser tratados como nos sentimos ser abre espaço para uma discussão que seria interessante se não fosse tão infantil. As pessoas hoje em dia querem ser tratadas como acham que são, causando uma tremenda confusão, já que cada pessoa percebe a outra de forma diferente. Hoje em dia, você pode se declarar qualquer coisa: um cavalo, uma ave, uma planta até. E exigir ser tratado como tal.

Para quem lê o blog sabe a falha que isso é: primeiramente porque o desejo é algo extremamente fugaz. "Hoje eu sou planta, amanhã serei um cachorro, e a cada dia que passa, quero ser tratado da forma como eu sinto ser". Com um agravante: "ai de quem me tratar diferente! Ai de quem me olhar e dizer que sou algo diferente do que eu me sinto ser! Isso é preconceito, é alguma-coisa-fobia, e tenho direito a reparação (em dinheiro, claro). Afinal sou uma pessoa livre para ser quem eu quero ser".

Por outro lado, quando alguém se utiliza do direito do desejo de forma que não me convém, eu uso o direito da percepção: eu te vejo de forma diferente, seja pelo motivo que for. "Eu não te vejo pessoa, eu te vejo animal". "Você diz ser gato, mas eu te vejo como boi". Isso faz com que as situações sejam julgadas pela conveniência, não pelos fatos e intenções. Imagine apurar um crime nestas condições!

Não existe caminho do meio para esta situação (em outro post, vou explicar que caminho do meio não existe pra nada!). O que pode superar esse conflito é o Direito Natural: aquele que a Natureza, em sua sabedoria, mostra que pão é pão, queijo é queijo. E ninguém gosta disso, porque desejo e percepção deixam de ser convenientes para a situação, colocando todo mundo em seu lugar.

05 dezembro 2017

Os quatro grandes pilares


Apesar da aparência de um post político, esta não foi a intenção. Os assuntos se entrelaçam, e não há muito o que se fazer. Também não adianta apenas navegar mais e mais fundo dentro de si, se não se traz esse conhecimento para fora. A ideia é fugir da equação previsível, com o maior afinco possível, pois por mais que se estude e se viva, a impressão que dá é que andamos em círculos.

Indo na levada da Reserva de Mercado, e fazendo um paralelo com Divergente e Matrix, existe na sociedade quatro grandes pilares que a sustentam, como grandes reservas de mercado.

  • A Academia: o "conhecimento da realidade";
  • A Igreja: ou as instituições religiosas;
  • As Leis: a ordem social;
  • A Desordem: tudo o que não se encaixa nos pilares anteriores.

Entenda que isso por si só não é algo negativo. É algo necessário para o animal humano sobreviver. O ser humano precisa de ordem - ele não consegue viver sem. É uma parte de seu instinto controlar e ser controlado. Nessa deixa, a pessoa é programada para viver em grupo, tornando-se previsível - por mais excêntrica que aparente ser. A programação começa na mais tenra idade e segue ao longo da vida. Ela pode sair dessa situação, através da progressão da consciência - algo já explicado aqui -, e deixar de ser influenciada pelos pilares.

O pilar da desordem é uma contraposição aos outros três, composto por outras estruturas menores, mas interligadas. A pessoa que sai do sistema transita entre os pilares, tem consciência deles, mas deixa de sofrer influência. Não segue mais a programação padrão - possui a própria, baseada no instinto natural com a consciência do sistema e das programações. Torna-se, então, imprevisível - o que é perigoso para o sistema como um todo, para todos os pilares. De forma geral, as pessoas buscam libertar-se dos pilares, mas não têm maturidade para isso.

No final das contas, não existe contraposição, e sim conflito de interesses. Como em Divergente, as diversas facções servem para manter o sistema funcionando como um todo - e mesmo os sem-facção possuem seu lugar. A cidade é trancada para fora, e não para dentro - e ninguém nunca questionou isso. Anular esta influência, e mesmo usá-la ao seu favor, é talvez a principal tarefa de uma pessoa. Quando se é muito jovem, apesar da abertura mental que existe, não existe maturidade para agir. Ao amadurecer, a programação já está concluída e funcionando, o que torna difícil a reprogramação. É algo que muitos querem, mas poucos tentam, e alguns realmente conseguem.

28 novembro 2017

Religião da Paz?


Engalfinhei-me com uma pessoa no WhatsApp (deu pra entender que usei a palavra no sentido figurado, né?) por causa de religião. Não por uma ser melhor que a outra, longe disso, mas pela ideia vigente de que há religiões que não pregam valores elevados, sendo uma em específico. O problema é foi que tal pessoa colocou tudo no mesmo saco, tirando só a que ela praticava. Pior do que isso foi uma terceira pessoa enviar mensagem no privado tentando me constranger, e soltou a seguinte pérola: "Para política, só existem três religiões".

Estudo consciência e evolução há alguns anos e percebi que há duas manifestações dentro de cada religião: a institucional e a dogmática. Na primeira, há a atuação "formal" da religião; na segunda, o terreno da fé, que acaba por transcender a primeira. Muitos, por exemplo, se dizem cristãos sem seguir uma igreja em específico, mas pela fé que têm em Cristo. As críticas de Gil Vicente contra a Igreja de sua época foram aprovadas pela Inquisição, por focar na corrupção e não na instituição ou no dogma em si.

É um terreno complicado e delicado de se abordar, sobretudo por conta do preconceito. Concordo que discutir dogma é algo inútil e mesmo doloroso, mas discutir sobre instituições, sobre pessoas, deveria ser algo saudável com o intuito de melhorar a instituição como um todo, pois pior que os tranqueiras são os omissos - e isso acontece em qualquer religião.

Outra coisa que me surpreendeu foi o fato de determinadas religiões (instituições e/ou doutrinas) serem consideradas inferiores a outras. Por algumas possuírem maior número de "adeptos", acabam por ganhar mais importância do que outras, sobretudo em questões que envolvem "coletividades". O nível da conversa diminui a níveis de reservas de mercado e jargões de programação, ou seja, como não se deixar influenciar pelo outro ou mesmo influenciá-lo.

Um dos argumentos usados é de que a religião do outro prega imposição sobre pessoas que não seguem da mesma instituição, cuja doutrina o ratifica. Se isso for realmente verdade, é uma exceção à regra, já que religiões, de forma geral, são caminhos de contato com o Divino, seja lá o nome que deem. Quanto mais elevados seus princípios, mais têm pontos em comum. Se uma "religião" não consegue transcender valores, que contato com o Divino ela tem? É meio que uma ideologia política, não?

"Mas, se alguém vier me atacar em nome da religião?" As pessoas temem ter seus sistemas de crença destruídos por outras pessoas, sobretudo seus desafetos. Fé não é uma coisa que se perde porque o outro te ameaça. A luta é, principalmente, dentro de cada indivíduo, e só ele pode mudar sua própria situação. Sobretudo: a religião é algo muito mais pessoal do que institucional ou coletivo.

21 novembro 2017

O animal humano


"Eu nunca vi na natureza
uma flor tentando ser um leão
Eu nunca vi na natureza
uma cobra tentando ser um gavião"


Homem do Brasil - Bicho Estranho

O ser humano é um animal, como qualquer outro. Talvez você tenha visto isso em uma aula de biologia, mas com tantas ciências humanas acabou deixando isso de lado. É algo meio opaco e esquecido. Fala-se de progresso e civilização, superação dos instintos pela consciência. Os conflitos de hoje em dia estariam ligados aos instintos animais que ainda persistem na humanidade. A biologia estaria em conflito com a sociologia, antropologia e afins...

Sob o prisma evolutivo, chega a fazer sentido a tentativa de abandonar os instintos com o intuito de despertar a própria consciência. Há a impressão de abandonar o lado animal em nome do lado humano, mas... o ser "humano" é um animal como qualquer outro. Ou seja: o caminho evolutivo está justamente em trabalhar os próprios instintos. Despertar a consciência não é abandonar os instintos e trocar por um comportamento mais social, mas agir com os instintos de fora racional.

Parece contraditório, mas os conflitos que ocorrem na sociedade hoje em dia são por causa da obsessão das pessoas em tentar reprimir algo que é tão natural nelas. Assim como se ofendem quando chamadas de crianças, as pessoas tendem a se ofender quando chamadas de animais. O animal é ligado a algo bruto, involuído, quando na verdade ele está livre das programações criadas pelas reservas de mercado. O comportamento humano é igual ao do animal revestido de civilidade.

Interessante perceber como as coisas mudam de sentido ou mesmo o perdem sob o olhar animal. Grandes conflitos do dia-a-dia podem ser simplesmente ignorados: não passam de mimimi, há coisas mais importantes para gastar energia. Entrar em conflito com alguém, seja por palavras, seja por vias de fato, é algo tão natural quanto ouvir aquela conversa mole. Os relacionamentos ganham uma nova dimensão: a mente não permite reprogramar os instintos de forma completa.

Ao observar a natureza, seja a selvagem, seja a de criação, é comum humanizar o comportamento dos animais, quando dever-se-ia refletir sobre o contrário: os humanos que são próximos aos animais. Quando você tiver uma dúvida, veja como os animais agem na natureza, sobretudo os mamíferos, que são biologicamente mais próximos. Não tenha medo de seus instintos, por mais "irracionais" que sejam: no fundo eles são racionais, mas além da compreensão das pessoas programadas.

14 novembro 2017

O Vazio


Para haver algo, é necessário nada haver primeiro. Para que o Todo surja, é necessário que Nada exista. Para encher um copo, é necessário esvaziá-lo antes. E depois de Tudo, o Nada retorna naturalmente. Parei para pensar nisso depois de reparar que as pessoas acham que o Vazio, o Nada, é um estado "antes" de acontecer algo, sem importância em si. Muitos o temem, poucos realmente o entendem, mas todos o vivem constantemente.

Sempre haverá aquele momento de "nada para fazer". Sempre haverá aquele momento no qual as ideias somem, as palavras perdem sentido, e o fazer alguma coisa torna-se nulo. Não adianta forçar a barra, fazer algo que será inutilizado depois. Para quem quer praticar meditação, é o momento perfeito para entendê-la e vivê-la. Não o preencha. Não faça nada, nem reprima nada.

Acho interessante o temor que as pessoas têm pelo Vazio: a ânsia de preenchê-lo faz com que as pessoas façam coisas absurdas - entram aí os vícios. Seja por compras, por álcool ou drogas, o vício é uma tentativa de preencher o Vazio, nem que seja por alguns momentos; mas ele continua lá, porque para algo existir é necessário que não exista. Não é necessário lutar contra os vícios: ao se aceitar o Nada, o Todo é aceito junto. E a necessidade do preenchimento constante desaparece. Claro que, se necessário, o tratamento de saúde correspondente deve ser realizado.

Parece paradoxal um post sobre o Nada, palavras para descrever o que não dá para ser descrito. Se fosse assim, não seria necessário escrever sobre o Óbvio, afinal, ele é óbvio, mas mesmo assim se escreve sobre ele. É uma tremenda vaidade considerar o óbvio desnecessário de explicação. O óbvio não é tão óbvio assim, assim como o Todo e o Nada são absolutamente assim. Para esses assuntos, uma reflexão profunda é necessária.